Rita Apoena

Compilação de poemas da Rita Apoena. Conheça o toque de ternura das palavras dela.
dos cílios
Os cílios agarraram-se às pálpebras quando tentei fechar meus olhos. Mas você assoprou e todos voaram. De novo nasceram e de novo voaram. Não faça mais isso! Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que você for embora?
sobre o sono
Meu sono é um crânio escuro, onde mora um homenzinho alado. Às seis da manhã, ele levanta as minhas pálpebras, assim como eu, na esperança do amanhecer, também levanto as janelas do quarto.
da leitura
Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.
o meu sapato
E depois fiquei ali, com a cabeça baixa, sem desgrudar os olhos do meu sapato. Alguns modelos de sapato são assim: feitos com olhos grudados, não há solvente que os possa tirar. Há uma grande distância entre o pensar e o agir. A distância de um passo que o meu sapato, tão cheio de olhos, não soube enxergar.
o acidente
pois ali está uma senhora levantando a porta enrugada do seu automóvel que, num segundo, envelheceram. No retrovisor, um pedaço de espelho partido e o olhar de uma moça que colidiu contra o tempo. E por isso acariciam-se – o automóvel e a senhora – com suas peles envelhecidas, abraçadas à árvore que não guarda rancor.
madrugada
Para o homem que dorme na rua o asfalto é uma noite escura e sem estrelas.
sobre os vestidos esvoaçantes
Olha, eu não deveria mais vestir um pedaço de tecido que já se considera “vestido” antes mesmo de abraçar o meu corpo. Trazer um particípio passado enrolado na pele é estar envolta nessas lembranças.
sobre os vestidos de algodão
Não, não te preocupa vestido!
Amanhã, quando o sol quente voltar ao céu
e todas as nuvens te quiserem de volta,
os dois pregadores, no varal, vão te salvar!
novo sinal de trânsito

O semáforo de pedestres acabou de me dizer que o Incrível Hulk pode atravessar.

sobre eles
Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.
reciclagem

Tempo difícil para as pessoas desse mundo:
quem tinha tempo para a poesia?
Pois ela comprou um carrinho invisível
e começou a catar palavrão.

preste atenção:
O mundo é um moinho. Não de vento, mas de sopro. O que Cartola chama de sonho mesquinho, as crianças… de catavento.
anúncio para solitários

Procura-se um amigo sozinho
de andar discreto e gesto silencioso.
Procura-se desesperadamente um amigo
que saiba se aproximar
de um passarinho.

do futebol
Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pelos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham os seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.
das respostas
Algumas frases têm o poder da folha em branco. Se alguma delas acertar você, abandone todas as suas respostas: é inútil escrever de branco sobre folhas brancas. Minha caneta transparente estourando frases dentro da bolsa:
foi um grande silêncio.
dos postes de luz

Quando voltar do trabalho, olhe para cima e repare:
no meio dos prédios, altos, frios e cinzentos
todos os postes de luz, com seus fios
adormecem de mãos dadas.

do shopping center
Olhar a manequim de uma loja é deparar-se com o silêncio triste de uma boneca que cresceu. E que agora só queria inverter a brincadeira e vestir em você aquele monte de roupinhas.
dos grandes centros
E só essa multidão que esbarra
e esbarra em meus ombros.
Em alguns anos terei os ombros
esculpidos pela solidão.
verbete “amour”
Em francês, “amour” significa o par de meias macias que um estende ao outro ao perceber que seus pezinhos estão esfriando.
dos poetas

Então, quando você me beijar,
vai sentir o gosto da minha escrita,
pois a fim de nunca esquecê-las
eu trago todas as minhas palavras
na ponta da língua.

da cumplicidade
Rita Apoena não entende por que um guarda-chuva se chama guarda-chuva e não guarda-cabeça. Afinal, de que lado ele está?
poeira

Mas a poeira é só a vontade que o chão tem de voar.

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