Educação

O Ragnarök na educação: o preocupante sono de Odin

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“A universidade, em pleno século XXI, ainda ‘produz’ professores de ensino básico formados por professores que nunca pisaram em uma escola de periferia”

Alex Vieira é mestre e doutorando em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/Uefs) e coordenador técnico de Centro Estadual de Educação Profissional em Logística e Transportes Luís Pinto de Carvalho, na Bahia. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

Em Asgard, Odin é o protetor maior, ele é Argard e Asgard o respira. De tempos em tempos, Odin entra em profundo sono por três sóis e luas, e é nesse período que a soberania dessa terra entre em risco. Trolls, gigantes e diversos tipos de ameaças tentam dominar Asgard. É para isso que existem os Heróis, para proteger Asgard durante o sono de Odin.

É no contexto do mito nórdico que busco levantar algumas conjecturas que permeiam a situação da educação, aqui em especial, a educação na escola média e pública do Brasil. A tempo, o Ragnarök, que está no título, é o fim irrecorrível, é “aquilo” que os heróis temem. Enfim, é o dead line para as esperanças e a revelação da soma de todos os medos e incertezas que cercam aqueles heróis.

Aqui, no mundo dos humanos (Midgard), o sono de Odin já perdura por muito tempo, o que torna a luta de nossos heróis terrenos incessante.

Mas quem são nossos heróis? Nossa educação não está muito distante da realidade de Asgard e é no mito que encontramos um meio frutífero para tal analogia, que, dentro dos limites da realidade, nos revela um lado sombrio e temeroso na praxe educacional. É no sono de Odin, que muitos professores lutam contra todas as variáveis contrárias que os cercam, lutam certos de uma “crença” em seu protetor que brevemente irá acordar e dar o descanso devido aos incansáveis heróis.

Grosso modo, o discurso parece se encaixar milimetricamente na educação pública, caracterizada como de má qualidade e passível de diversos estudos da academia. Ledo engano, a educação é um sistema dinâmico e interdisciplinar, que mesmo estratificado, quaisquer ações em um dos dois sistemas (público ou privado), encontra respingos no contexto em geral.

Ou não será assim que esta ocorrendo em relação à nova formatação de ingresso nas IES federais através do novo ENEM. Isso afetará somente a rede pública? E as cotas no contexto das políticas de igualdade social atingem somente o ensino público? Disparidades a parte, não estamos em dois mundos individualizados e distantes que coexistem em tempo e espaço diferentes, mesmo que transpareça isso.

A escola já não é mais um espaço de doutrinação nem mesmo de pura e restrita formação disciplinar e conceitual. Enganam-se os que ainda pensam, agem e querem que a mesma seja e esteja nessa formatação, e esses não são poucos. Por outro lado, essa mesma escola perde sua identidade quando o professor ao menos sabe qual é a sua.

Um ponto crucial nesse embate é a formação da/do docente, uma formação que não proporciona reflexões sobre uma hiperespecialização do conhecimento que fincou suas raízes em muitos departamentos e demarcou os alicerces da formação de muitos dos professores que hoje lutam no já anunciado Ragnarök.

Paira sobre a educação a dicotomia dos que pregam conhecimento interdisciplinar e mudanças de currículo, porém demarcam esse conhecimento em disciplinas e sub-disciplinas. Um bom exemplo são os recentes concursos para professores dos IES, solicitando uma linearidade de formação, que vislumbre um engessamento de formação desde a graduação ao doutorado, enaltecendo assim um conhecimento compartimentado, hiperespecializado e paradoxalmente incompatível com muitos cursos que estão sendo implantados nas universidades (Os bacharelados interdisciplinares são exemplos inequívocos).

Será que os professores que atuam nas universidades atualmente possuem realmente tal trajetória acadêmica? Aos que não possuem, esses podem ser considerados inaptos a sua atual praxe docente? Podemos dar uma “olhadinha” no Lattes de alguns desses professores e estaremos vendo renomados pesquisadores que não seguiram necessariamente uma trajetória linear e, por sinal, são inegavelmente competentes em sua atuação profissional.

O Ragnarök que se anuncia não perpassa somente o ensino médio, ele tramita desde o ensino fundamental aos infidáveis debates na academia. Nesse sentido, é preciso chegarmos a um denominador comum no que tange as perspectivas da educação no Brasil.

A universidade, em pleno século XXI, ainda “produz” professores de ensino básico formados por professores que nunca pisaram em uma escola de periferia. Engenheiros também são formados desse modo? E os médicos, também são formados por professores que nunca operaram um paciente? Talvez! Não julguemos sem comprovações.

O problema não reside exclusivamente nesse ponto, e de certo modo, transpassa a insuficiencia de percepção dos que lutam por novos rumos interdisciplinares do conhecimento e por outro lado abjuram dessa luta em prol do protecionismo de classe, criando assim barreiras para que outros profissionais com formação não linear possam atuar no ensino superior. Isso reflete na disciplinarização do conhecimento que vemos na educação básica, que por sinal é discutido e rediscutido por muitos como não promissor nessa mesma educação.

Passamos por orientações curriculares nacionais e estaduais, decretos e Leis, e muita coisa ainda permanece estática na educação, acarretando mudanças abruptas e descontextualizadas em muitos casos. Nossos índices melhoraram em alguns aspectos, porém ainda pecam quando comparamos a índices de países com menor expressão no campo científico-cultural, vide nossas três últimas colocações no Pisa.

Investimentos estão sendo realizados para a formação de professores e inovações como a proposta encaminhada ao Conselho Nacional de Educação pelo MEC, que trata da diversificação de currículos em atividades integradoras em eixos de trabalho (ciência, tecnologia e cultura).

É nesse contexto de incertezas que surge a renovada questão: que tipo de professor irá atuar na escola da futuro? Que tipo de professor irá formar esses professores?

O termo futuro não nos remete somente a um cassiandrismo que permeia no terrível e temido Ragnarök, ele nos revela que, se algo não for feito agora, estaremos minando nas (os) futuras (os) cidadãs (ãos) a criatividade e a interdiciplinaridade, itens indispensáveis e necessários para a sobrevivivência no planeta e assim, perto de um final, talvez nossos heróis aqui em Midgard, mesmo não possuindo um Mjölnir ou a lança de Tyr, possam respirar aliviados no profundo e infindável sono de Odin.

Por Alex Vieira

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