A Fábula dos Porcos Assados

“A Fábula dos porcos assados” Artigo originalmente publicado em “Juicio a La Escuela Círigliano, Forcade Tilich Editorial Humanitas – Buenos Aires, 1976”. Este trabalho, em seu texto original, em espanhol, circulou entre os alunos do Programa do Pós-graduação da Universidade Metodista de Piracicaba, em 1981.

A Fábula dos Porcos Assados

Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a origem do assado é esta:

CERTA VEZ, ocorreu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, que até então os comiam crus, experimentaram a carne assada e acharam-na deliciosa. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque. O tempo passou, e o sistema de assar porcos continuou basicamente o mesmo.

Mas as coisas nem sempre funcionavam bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou, ainda, às árvores, excessivamente verdes, ou à umidade da terra ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: havia maquinário diversificado, indivíduos dedicados a acender o fogo e especialistas em ventos – os anemotécnicos. Havia um diretor-geral de Assamento e Alimentação Assada, um diretor de Técnicas Ígneas, um administrador-geral de Reflorestamento, uma Comissão de Treinamento Profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias e o Bureau Orientador de Reforma Igneooperativas.

Eram milhares de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.

Um dia, um incendiador chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era fácil de ser resolvido – bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor-geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e disse-lhe: “Tudo o que o senhor propõe está correto, mas não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? E com os acendedores de diversas especialidades? E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas máquinas purificadoras de ar?

E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Hein?.”

“Não sei”, disse João, encabulado.

“O senhor percebe agora que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que, se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo?.”

“O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas? O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? E o que fazer com nossos engenheiros em porcopirotecnia? Vamos, diga-me!”.

“Não sei, senhor.”

“Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia – isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo.”

João Bom-Senso, coitado, não falou mais um “a”. Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu.

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A Fábula dos Porcos Assados

6 comentários sobre “A Fábula dos Porcos Assados

  1. Thamillys do Nascimento Silva disse:

    Essa fábula é bem interessante, pois relata os tempos antigos, onde houve descobertas do fogo e a tecnologia aumenta até os dias de hoje.
    Muitas vezes as pessoas complicam bastante algo, que poderia ser resolvido bem mais fácil, do que se pensa. E nem sempre basta ser especialista para se resolver tal situação, o negócio é ter respostas lógicas.
    A moral da história é que nem sempre queremos saber da opinião dos menos favorecidos, os tratamos com diferença e muitas vezes ele pode ser bem mais inteligente do que se pensa.

  2. RENATA DE LIMA disse:

    FABULA DOS PORCOS ASSADOS

    Adorei a Fábula,ela nos traz uma sutil reflexão no tocante a necessidade do uso do bom senso em tudo que se possa efetivamente construir.

    Revela o quão ignorantes nos permitimos ser por orgulho e por acreditar que retroceder é sempre perder. Na vida ir “a frente” não resume sucesso, por diversas vezes podemos voltar a trás e seguirmos a diante.

    Reflete a nossa estúpida realidade, onde por comodismo, se remenda o velho e caótico sistema para não admitir por vaidade sua complexa pobreza.

    Enfoques que sugerem a necessidade de uma postura na abordagem de determinados problemas.É bem interessante,relatamos os tempos antigos, onde houve descobertas do fogo e a tecnologia aumenta até os dias de hoje.

  3. jose gedilson henrique ferreira disse:

    gostei do texto muito criativo,que me fez refletir sobre coisas que estão bem a minha frente e que eu não dava valor. pois na verdade na maioria das vezes é necessario se valer do santo de casa

  4. Railma Alencar disse:

    Desse modo, percebe-se a moral que a fábula nos quer passar: o quão nos permitimos ser ignorantes ao ponto de achar que as soluções para determinados problemas são muito mais complexas do que imaginamos, onde na verdade as respostas ou soluções estão diante dos nossos olhos, é apenas uma questão de decisão certa na hora certa independente de formação.
     

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